VII - Afirmações Talmúdicas e as Respostas Caraítas

Discutindo este problema com estudantes do Talmude, alguém se encontrará invariavelmente com muitas das típicas afirmações Rabínicas sobre versículos que eles crêem que aludem à "Lei Oral" ou que ao menos necessitam de um acompanhamento oral que explique o versículo. Inclusive se alguém encontra algum destes versículos no conjunto da Bíblia Hebraica, alguém encontrará que estes versículos realmente não fazem referência à "Lei Oral", nem precisam de uma Lei Oral para sua compreensão.

Afirmação #1:

"É-nos dito para matarmos os animais como Deus ordenou, todavia, em nenhuma parte do Tanach inteiro Deus nos diz como matar os animais".

Resposta:

Para tentar demonstrar a existência da "Lei Oral" os estudantes do Talmude constantemente citam Deuteronômio 12: 21 que afirma: "... poderás matar das vacas e das ovelhas que YHWH tenha te dado, como eu te mandei ...". Os Rabinos afirmam que a frase "como eu te mandei" se refere ás partes da "Lei Oral" que explicam os métodos apropriados de matar um animal. Existem muitos requisitos expostos no Talmude sobre o modo "apropriado" de matar um animal; todavia, estes são os costumes daqueles que escrevem o Talmude ao invés das leis de Deus. O aspecto mais equivocado da afirmação de que esta passagem se refere a uma suposta lei oral é que ignora o contexto da passagem. Não menos de 5 versículos antes vemos que a própria Torah dita como devemos matar os animais: "Poderás sacrificar e comer a carne... conforme a teu desejo... só que sangue não comereis; sobre a terra o derramareis como água. (Deuteronômio 12: 15-16). Disto, aprendemos que para matar um animal apropriadamente devemos fazê-lo de maneira que verta seu sangue na terra - em oposição a permitir que seja endurecido nas veias do animal sacrificado. Esta leitura é confirmada pelas linhas posteriores relacionadas com o próprio versículo em questão: "Portanto, te mantenhas firme em não comer sangue, porque o sangue é a vida, e não comerás a vida junto com a carne..." (Deuteronômio 12: 23). De fato, este versículo declara que o único requisito em relação ao abate, no contexto desta passagem, é o de nós não comermos o sangue. Ao matar um animal de modo que o sangue deixe suas veias, assim como Deus ordenou, nós evitamos consumir o sangue do animal, seguindo o mandamento de Deuteronômio 12: 15-16.

Afirmação #2:

"De fato há lugares onde a palavra Torah é usada em sua forma plural (Torot), então ..., como os Caraítas podem afirmar que não há nenhuma referência a duas Torahs na Bíblia?".

Resposta:

Mesmo quae a palavra Torah apareça em sua forma plural ao longo da Bíblia Hebraica, o termo Torah, no sentido de corpo coletivo de leis dado por Deus, só é usado no singular. Compare os versículos seguintes para ver a diferença entre o uso da palavra no sentido de um mandamento específico e o uso da palavra no sentido da coleção de leis divinas.

Versículos do Tipo 1: A palavra Torah é usado no singular ao referir-se a Torah, o conjunto de instruções de Deus: "E Moisés escreveu esta Lei (Torah), e a entregou aos sacerdotes, filhos de Levi ... (Deuteronômio 31:9). Aqui a palavra Torah foi traduzida como "lei", em referência ao conjunto total de obras que Deus ordenou a Moisés que escrevesse. O termo Torah nunca é usado no plural em casos como os do Tipo 1. Se você desejar ver mais versículos deste tipo, veja: Textos Base pelos quais os Caraítas rejeitam a "Lei Oral".

Versículos do Tipo 2: O singular de Torah é usado com um significado diferente ao do total de Torah: "Esta é, pois, a Torah [a introdução] de Nazir no dia que se cumprir o tempo de seu nazirato: Virá a porta da Tenda da reunião". (Números 6: 13) É claro que aqui todavia a palavra Torah é usada no singular, não se refere a Instrução coletiva de Deus, isto é, não se refere a Torah. Os versículos do Tipo 2 se referem ás leis específicas tais como aquelas que têm a ver com animais, indivíduos, ou grupos. Se você desejar ver mais versículos deste tipo, veja Números 5: 29-31, Levítico 7:1, e Levítico 11: 46-47.

Versículos do Tipo 3: Aqui a palavra Torah no plural é usada com um significado diferente ao do conjunto da Torah: "Estes são os estatutos, ordenanças e os ensinamentos (v' hatorot) que YHWH estabeleceu entre ele e os filhos de Israel no Monte Sinai por meio de Moisés" (Lev. 26: 46).

Aqui a palavra Torah é usada em sua forma plural; no entanto, aqui esta "Torah" é qualitativamente diferente da Torah dos versículos do tipo 1, isto é, não se refere a Torah. Nós vemos que este versículo usa a palavra Torah com o significado de instruções gerais ou ensinamentos contidos na Torah. Nós entendemos isto a partir de seu contexto já que é usado com as palavras "ordenanças" e "estatutos" que também se refere a artigos contidos na Torah. Todos os versículos que se referem ao plural de Torah são deste tipo. Além disso, nos é dito que estes ensinamentos (torot) foram escritos de modo que nos chegaram da mão de Moisés. Então, não podem estar referindo-se a "Lei Oral". Outros versículos deste tipo: Êxodo 18:20 e Neemias 9: 18

Para resumir, o termo Torah significa "ensinamento, lei". Pode referir-se a uma lei específica, como em "Esta é a Torah do sacrificio pela culpa" (Levítico 7: 1), ou pode se referir ao corpo coletivo de lei divina, como em "o livro da Torah de Moisés". (Josué 8: 31). Quando aparece no plural como "Torot", está sempre formando parte de uma serie de palavras em relação a leis específicas: "e lhes destes juízos retos, Torahs verdadeiras, e estatutos e mandamentos bons". (Neemias 9:13). Obviamente neste último versículo a palavra Torah é um sinônimo de mandamento, estatuto, etc., e se refere a leis específicas, não ao corpo coletivo da instrução divina. As pessoas que interpretam este versículo como uma referência a lei "Lei Oral" também teriam que defender que "os estatutos e mandamentos" se referem a múltiplos corpos de lei (pelo menos 4, já que os dois estão no plural!). Estes versículos só tem sentido se todos estes termos estão se referindo a palavras diferentes em relação a leis específicas.

Afirmação #3:

"No Livro de Daniel nós vemos que Daniel orava três vezes ao dia voltado em direção a Jerusalém. Isto é algo que ele aprendeu da "Lei Oral" já que não é ordenado na Torah".

Resposta:

De fato, Daniel 6:11 afirma: "entrou em sua casa; abertas as janelas de seu quarto que davam para Jerusalém, se ajoelhava três vezes ao dia, orava e dava graças diante de seu Deus...". Uma afirmação comum dos estudantes do movimento Rabínico é que já que a Torah não nos diz para orarmos em direção a Jerusalém ou quantas vezes ao dia devemos orar, estas coisas só poderiam ser conhecidas graças à ‘lei oral’.

Esta afirmação ilustra uma diferença significante entre os Caraítas e os Rabanitas. Os Caraítas acreditam que cada palavra e, cada exemplo do Tanach está ali por alguma razão, então os Caraítas usam todo o Tanach para deduzir princípios religiosos e o significado dos mandamentos, enquanto que os rabanitas geralmente se limitam somente a Torah e ao Talmude. É verdade que a Torah não menciona que nós devemos orar com o rosto voltado para Jerusalém, mas o conceito vem da dedicação do Primeiro Templo de Salomão.

Provavelmente falando sob a inspiração divina, Salomão diz que quando nós estamos cativos em uma terra estrangeira ou estamos fazendo a obra de Deus em uma terra estrangeira, nós podemos orar em direção a Jerusalém de modo que Deus mantenha nossa causa. Salomão declara:

           Se teu povo sair para a batalha contra seus inimigos pelo caminho que tu lhes mandares, e orarem a YHWH com o rosto voltado para a cidade que tu escolheste e em direção a casa que eu edifiquei ao teu nome, tu ouviras nos céus sua oração e sua súplica, e lhes fará justiça. (1 Reis 8:44-45).

Como resultado, todos os judeus fora de Jerusalém oram em direção a Jerusalém. Esta ideia também é ilustrada em Salmos 138:2: "Prostrar-me-ei em direção ao teu Templo Sagrado...". A respeito do número de orações diárias, há muitas opiniões boas. Daniel escolheu orar três vezes ao dia, enquanto que a pessoa que escreveu Salmos 119 orava a Deus sete vezes ao dia (Salmos 119:164 e 169-176). Disto aprendemos que o número de vezes que uma pessoa deve orar a Deus ao dia depende do individuo. Hoje em dia, já que as orações são um substituto dos sacrifícios (veja Oséias 14:3; Salmos 141:2), nós devemos orar pelo menos duas vezes ao dia, de domingo a sexta-feira e três vezes por dia no sábado.  Já que eram oferecidos dois sacrifícios e um sacrifício Sabatino especial oferecido no Shabat.

Finalmente, o livro de Daniel ilustra um ponto a mais que há para ressaltar. Ao orar, Daniel se prostrava totalmente (isto é, ele orava de joelhos). Nos tempos Bíblicos a prostração plena, era quase sinônimo de oração (veja também Salmos 95:6 e Salmos 138:2). Nas terras Orientais até o final do Periódo Medieval os Rabanitas oravam prostrados plenamente. Atualmente, nas Congregações Rabanitas muito Ortodoxas, em Yom Kippur toda a congregação se prostra totalmente. Até o dia de hoje, os Caraítas praticam a prostração plena em suas orações.